Documentos obtidos pela coluna confirmam que a corporação mobilizou a própria estrutura e previu o uso de cotas do Serviço Voluntário

Após revelar o uso indevido das instalações do Centro de Treinamento Operacional (CTO) para abrigar um evento particular e religioso do grupo Legendários, a coluna Na Mira teve acesso a novos e graves desdobramentos que aprofundam as suspeitas de desvio de finalidade na gestão do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal (CBMDF). Após a denúncia, o Ministério Público do Distrito Federal (MPDFT) requisitou a abertura de Inquérito Policial Militar (IPM) pelos bombeiros para apurar o caso, nessa segunda-feira (28/9).
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Um documento interno da própria corporação, intitulado “Operação Legendários”, comprova o CBMDF elaborou um planejamento estratégico formal e detalhado para garantir o “sucesso” do encontro privado — que cobrou R$ 1.988 por participante.
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A revelação de que o próprio Estado montou um plano de operação com dinheiro público para respaldar uma atividade fechada que movimentou cerca de R$ 160 mil em ingressos e 80 participantes, coloca sob definitivo xeque a legalidade da cessão do espaço e a conduta do comando da instituição.
Planejamento oficial
Segundo as diretrizes contidas no documento de operação do CBMDF, a intenção formal descrita era de prestação de apoio preventivo e resposta emergencial durante a capacitação técnica da “Força Imediata de Resgate Espiritual” (FIRE).
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O plano operacional estabeleceu atribuições diretas aos órgãos internos da corporação, dividindo as tarefas de suporte e logística entre diferentes setores. O Comando Operacional (COMOP) ficou encarregado de providenciar o planejamento da operação, publicar suas diretrizes em boletim ostensivo, emitir ordens de missão, acompanhar os trabalhos e formalizar pedidos de apoio, além de assumir a responsabilidade por providenciar recursos materiais via Seção de Logística e articular com o Grupamento de Motomecanização (GBMOT) a captação de viaturas.
Já a Seção de Serviço Voluntário (SECSV) recebeu a incumbência de organizar a escala de trabalho, prevendo a liberação de 18 cotas de Gratificação de Serviço Voluntário (GSV) e determinando que, na ausência de militares inscritos no banco de voluntários, a Diretoria de Gestão de Pessoas (DIGEP) realizasse a escalação compulsória de oficiais e praças.
Essa utilização de recursos do erário — por meio do pagamento de GSV, que é uma verba pública destinada por lei para reforçar o socorro e a segurança da população durante os dias de folga dos militares — para garantir o suporte e a segurança de uma imersão privada gerou forte revolta dentro da própria corporação.

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Segundo uma fonte militar ouvida pela coluna, a gravidade da situação ganha contornos ainda mais alarmantes. Teriam sido oferecidas 18 cotas de Gratificação de Serviço Voluntário (GSV), para que bombeiros militares atuem na prevenção e na segurança interna do encontro privado durante os três dias de imersão
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Entre sexta-feira (25/9) e domingo (27/9), o Centro de Treinamento Operacional (CTO) da corporação, uma estrutura militar estratégica mantida exclusivamente com os impostos do contribuinte para capacitar bombeiros no combate a incêndios e no resgate de vidas, teve suas portas blindadas para abrigar um evento estritamente particular e religioso
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A reportagem da coluna Na Mira acompanhou de perto, durante dois dias consecutivos, a intensa movimentação dos organizadores e integrantes do grupo dentro do CTO. No local, a equipe presenciou preparativos ostensivos que alteraram completamente a rotina da unidade militar
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Além disso, até mesmo o estacionamento reservado aos militares que trabalham diariamente no complexo foi adaptado
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Ali, os legendários ergueram outra grande tenda para abrigar uma “lojinha” oficial, onde araras exibiam camisas, casacos, bonés e diversos outros itens estampados com a marca da organização, devidamente colocados à venda para os frequentadores
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Toda a experiência contou ainda com uma infraestrutura de suporte reforçada pela instalação de oito banheiros químicos para atender ao “batalhão religioso”, desfrutando do conforto e da segurança institucional fornecidos pelas instalações do CBMDF
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Ao longo de todo o fim de semana, a pista de treinamento e as instalações operacionais da unidade militar estiveram completamente inacessíveis para o público geral e para a rotina normal do serviço de emergência.
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A restrição no local foi absoluta, visto que ninguém está autorizado a ingressar na área militar que não seja integrante cadastrado do grupo privado ou militar escalado para o apoio
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Tendas e “lojinha”
Durante dois dias consecutivos, a equipe da coluna Na Mira acompanhou a intensa transformação da unidade militar. O pátio do CTO deu lugar a uma megaestrutura particular:
- Acampamento e Tendas: foram erguidas cerca de 80 barracas em pátios internos para pernoite dos pagantes, além de uma grande tenda montada em área que passou por roçagem e nivelamento.
- Comércio Interno: o estacionamento reservado aos servidores da unidade foi adaptado para abrigar a “lojinha” oficial do movimento, onde araras exibiam camisas, casacos e bonés com a marca da organização postos à venda.
- Infraestrutura: foram instalados oito banheiros químicos para atendimento ao grupo privado, usufruindo da segurança de uma área militar blindada ao público externo.
Ao longo de todo o fim de semana, as pistas de treinamento operacionais ficaram absolutamente inacessíveis para o público geral e para a rotina normal do serviço de emergência, sendo o acesso restrito a credenciados do grupo e aos bombeiros escalados para o apoio.
Farra Gratificada
“A blindagem rigorosa em torno do evento privado expõe o desvio de finalidade de um bem público de alto custo, que passa a operar com portões fechados para atender aos interesses restritos de uma organização particular”, desabafou uma fonte militar ouvida sob reserva.
O movimento Legendários define a iniciativa como uma imersão voltada para a capacitação de voluntários em capelania, apoio humanitário e socorro em desastres, combinando exercícios de alta pressão com preceitos de matriz cristã.

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Outro lado
O comando do CBMDF foi procurado para prestar esclarecimentos sobre a cessão das instalações e o empenho de verbas públicas para o evento privado, mas não enviou resposta até a publicação desta matéria.
Em nota oficial enviada posteriormente, o movimento Legendários declarou que o treinamento buscou a “capacitação técnica de voluntários para atuação em situações de emergência, desastres e ações de defesa civil”. A entidade afirmou ainda que a atividade ocorreu “dentro das normas estabelecidas pelo CBMDF, com sua orientação e apoio, e em conformidade com a legislação brasileira sobre voluntariado (Leis nº 9.608/1998 e nº 12.608/2012)”.
