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Julimar dos Santos faz balanço da cultura no Guará

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DÉLIO ANDRADE
DÉLIO ANDRADEhttp://delioandrade.com.br
Jornalista, sob o Registro número 0012243/DF

A recuperação do Teatro de Arena, a reforma da Casa da Cultura, a ampliação das oficinas gratuitas e a revitalização da Rua do Lazer estão entre as principais realizações dos dois mandatos de Julimar dos Santos à frente da Gerência de Cultura do Guará. Escolhido pela comunidade cultural por meio de lista tríplice, ele encerra seu ciclo destacando os avanços na ocupação dos espaços públicos e na valorização dos artistas locais.
Julimar dos Santos faz um balanço da gestão, comenta a importância da participação da comunidade nas decisões sobre a política cultural, aponta os desafios que serão herdados por seu sucessor e conta como pretende continuar contribuindo para a vida artística da cidade.

Você encerra seu segundo mandato na Gerência de Cultura do Guará. Quais foram as principais conquistas desse período?
A maior conquista foi, sem dúvida, a retirada do Teatro de Arena do processo de Parceria Público-Privada (PPP), que impedia investimentos no espaço. Foi uma vitória coletiva, construída com o Conselho de Cultura, artistas, moradores e o apoio da Administração Regional. Conseguimos uma reforma de R$ 600 mil, recuperando um dos maiores teatros de arena da América Latina, com capacidade para mais de 5 mil pessoas sentadas.
Também destaco a transferência da Biblioteca Pública para a sede da Administração Regional, onde ganhou instalações mais amplas e passou a funcionar todos os dias da semana. Na Casa da Cultura, investimos mais de R$ 380 mil em reformas e ampliamos a programação de apenas três oficinas para quase 30 modalidades.
Outro resultado importante foi a recuperação da Rua do Lazer, que voltou a ser um espaço de convivência e hoje reúne cerca de 5 mil pessoas por edição. Valorizamos também o artesanato, as feiras e a ocupação cultural das praças.
Durante a pandemia, criamos o F.I.C.A. em Casa, em parceria com o Jornal do Guará, produtores e artistas, além de exposições virtuais e ações de apoio aos profissionais da cultura. A mobilização para ajudar o Circo Vitória foi especialmente marcante.

Você foi o primeiro gerente de cultura do DF escolhido por lista tríplice e passou duas vezes por esse processo. Como isso influenciou sua gestão?
Ser escolhido pela comunidade cultural da cidade onde nasci e trabalho com arte há quase 30 anos foi uma honra e uma grande responsabilidade. Procurei fazer uma gestão participativa, transparente e aberta ao diálogo.
Sempre defendi que as políticas culturais devem ser construídas de baixo para cima, ouvindo artistas, produtores, coletivos e moradores. A Gerência precisa atender às necessidades da comunidade, e não às preferências pessoais de quem ocupa o cargo.
A lista tríplice representa um avanço democrático, mas pode melhorar com votação presencial e virtual, sabatinas públicas e maior participação da juventude e dos novos produtores culturais.

A Casa da Cultura passou por mudanças importantes. O que o público encontra hoje?
Quando assumi, o prédio estava bastante deteriorado. Recuperamos sua estrutura e ampliamos a oferta de atividades. Hoje são quase 30 oficinas contínuas, envolvendo teatro, dança, capoeira, cerâmica, cinema, pilates e outras modalidades.
A Casa também passou a receber cursos, palestras e espetáculos financiados pelo Fundo de Apoio à Cultura e por outros editais. Tornou-se um espaço mais acessível para artistas, produtores e moradores.
Esse resultado foi possível com parcerias e muito trabalho, mesmo diante das limitações orçamentárias. Começamos com apenas dois assessores e hoje a Gerência conta com uma equipe de nove profissionais.
O próximo passo é ampliar a presença de crianças, estudantes da rede pública e jovens das regiões mais afastadas, fortalecendo a formação de novos públicos.

Como foi possível contemplar a diversidade cultural do Guará?
O Guará tem uma produção artística muito rica, com tradição no rock, reggae, rap, samba, blues, forró, circo, literatura, artes visuais e cultura popular. É uma cidade que revelou artistas e grupos reconhecidos dentro e fora do Distrito Federal.
Nossa preocupação foi garantir espaço para diferentes linguagens, sem privilegiar um segmento. Utilizamos a Casa da Cultura, o Teatro de Arena, o auditório da Administração Regional e também as praças, quadras, a Feira do Guará e o Polo de Modas.
O Conselho Regional de Cultura e os coletivos tiveram papel fundamental nesse processo. A gestão compartilhada ajudou a viabilizar reformas, eventos e a retomada de espaços públicos.

Quais foram as maiores dificuldades e o que ficou pendente?
O principal obstáculo sempre foi o orçamento reduzido para a cultura nas administrações regionais, além da burocracia para realizar reformas e manutenção. Conseguimos superar parte dessas dificuldades com emendas parlamentares, parcerias institucionais e participação dos artistas.
Ainda gostaria de ter entregue a climatização e os equipamentos de som e iluminação do Teatro de Arena e da Casa da Cultura. Também ficaram pendentes a reforma do Arco da Cultura, na Feira do Guará, e um projeto mais amplo de acessibilidade nos equipamentos culturais.
Outras propostas importantes são a criação de uma Escola de Artes e Ofícios, a ampliação das oficinas gratuitas para quadras como QE 38, QE 40, QE 42 e QE 44, além de um circuito de galerias de arte a céu aberto.
Também precisamos avançar na oficialização dos nomes que homenageiam personalidades da cultura local: Ricardo Retz, no Teatro de Arena; professora Sônia Dourado, na Casa da Cultura; e Maruska Techmeier Morato, na Biblioteca Pública.

A valorização do artesanato e dos espaços públicos também marcou sua gestão?
Sim. Como artesão e artista plástico, conheço as dificuldades de quem vive da própria produção. Procuramos incluir feiras de artesanato nos principais eventos e criamos a Feira de Artesanato da Praça Modelo, que pretendemos ver consolidada como Praça do Artesão.
Também trabalhamos na recuperação de monumentos, na criação de instalações artísticas e no fortalecimento das manifestações culturais nas praças.
Participamos ainda das articulações para o reconhecimento da Feira do Guará como Patrimônio Cultural Imaterial do DF. Preservar a memória e a identidade cultural da cidade é tão importante quanto promover novos eventos.

Que estrutura o próximo gerente vai encontrar e quais devem ser suas prioridades?
O próximo gestor encontrará a Casa da Cultura e o Teatro de Arena reformados, a Biblioteca Pública em instalações mais adequadas, uma equipe de nove assessores e cerca de 30 oficinas em funcionamento.
O desafio será manter essa estrutura, ampliar os recursos e garantir que os espaços continuem abertos à comunidade. Para isso, será fundamental preservar o diálogo com o Conselho de Cultura, artistas, produtores, Administração Regional e Secretaria de Cultura.
Também considero prioritário levar atividades culturais às regiões mais afastadas e buscar novos recursos para manutenção, oficinas e eventos.

Que conselho você deixaria ao seu sucessor?
Meu principal conselho é nunca governar apenas de dentro de um gabinete. O gerente de cultura precisa estar nas ruas, nas praças, nos ateliês, nas feiras e nos palcos, ouvindo quem produz e consome cultura.
É preciso respeitar o Conselho Regional de Cultura, trabalhar com transparência e entender que a gestão deve servir à coletividade. As dificuldades financeiras sempre existirão, mas podem ser enfrentadas com criatividade, diálogo e parcerias.
Ninguém faz cultura sozinho. O gestor precisa estar disposto a ouvir tanto os mestres da cultura popular quanto os jovens artistas que estão começando.

Qual momento mais marcou sua passagem pela Gerência e como pretende continuar atuando na cultura do Guará?
A entrega do Teatro de Arena reformado foi um momento muito emocionante. Mas também guardo com carinho as edições da Rua do Lazer, quando vimos milhares de famílias, crianças e jovens ocupando o espaço público com música, artesanato, circo e convivência.
Esses momentos mostram que a cultura fortalece o sentimento de pertencimento à cidade.
Encerro meu ciclo como gerente, mas não como agente cultural. Continuarei trabalhando como artista plástico, muralista, artesão, malabarista e ativista da arte popular.
Pretendo voltar a produzir eventos, oferecer cursos de arte e produção cultural e desenvolver atividades com jovens. O Guará tem localização privilegiada, muitas praças e enorme potencial para receber iniciativas culturais. Quero continuar contribuindo para que esse potencial seja aproveitado.

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