Durante boa parte da história política do Distrito Federal, o Guará esteve entre as regiões onde candidatos identificados com a esquerda encontravam maior receptividade. Foi assim desde as primeiras eleições após a autonomia política de Brasília e, de maneira bastante clara, entre 1990 e 2014. Esse comportamento mudou em 2018 e voltou a aparecer nas urnas quatro anos depois.
Agora, oito anos depois da primeira grande virada, o eleitor guaraense volta às urnas. A pergunta é inevitável: como o Guará vai votar desta vez?
A preferência histórica pela esquerda aparece já na eleição de 1990. Na primeira disputa para o Governo do Distrito Federal depois da autonomia política, Joaquim Roriz encontrou no Guará uma resistência maior do que em boa parte das outras regiões. Carlos Saraiva, candidato lançado pelo PT, praticamente empatou com ele na cidade.
Na mesma eleição, Lauro Campos, também do PT, teve desempenho expressivo para o Senado, enquanto Augusto Carvalho foi o candidato a deputado federal mais votado no Guará. Na disputa presidencial, Lula superou Fernando Collor por aproximadamente mil votos na 9ª Zona Eleitoral, diferença significativa para um colégio eleitoral que tinha cerca de 53 mil eleitores.
Em 1994, o comportamento se repetiu. Lula recebeu no Guará votação 11% superior à de Fernando Henrique Cardoso, que venceria a eleição presidencial. Para o Governo do DF, Cristovam Buarque ficou oito pontos percentuais à frente de Valmir Campelo. Lauro Campos teve novamente boa votação para o Senado e Augusto Carvalho liderou para deputado federal.
Quatro anos depois, Lula voltou a superar Fernando Henrique Cardoso no Guará. Na disputa pelo Palácio do Buriti, Cristovam Buarque recebeu 47% dos votos guaraenses, contra 32% de Joaquim Roriz e 14% de José Roberto Arruda. Arlete Sampaio também teve forte votação para o Senado.
Nas eleições proporcionais, porém, começavam a aparecer sinais de maior diversidade. Jofran Frejat foi o deputado federal mais votado na cidade, com 6.675 votos, seguido de perto por Agnelo Queiroz, com 5.764.
Em 2002, a preferência pela esquerda ficou ainda mais evidente. Lula recebeu 41.592 votos no Guará, contra 13.531 de Ciro Gomes, 12.129 de Anthony Garotinho e 11.844 de José Serra. Na disputa pelo Governo do DF, Geraldo Magela superou Joaquim Roriz por 36.150 a 29.997 votos. Cristovam Buarque recebeu 46.291 votos para o Senado, diante de 32.237 de Paulo Octávio.
A partir de 2006, essa vantagem começou a diminuir. Lula ainda recebeu mais de 46 mil votos no Guará, contra aproximadamente 40 mil de Geraldo Alckmin, e Agnelo Queiroz ficou à frente de Joaquim Roriz para o Senado. Em outras disputas, entretanto, candidatos de centro e de direita ampliavam espaço. Izalci Lucas foi o deputado federal mais votado na cidade.
Em 2010, Marina Silva foi a candidata à Presidência mais votada no Guará, com mais de 40 mil votos. Dilma Rousseff recebeu aproximadamente 28 mil. Para governador, Agnelo Queiroz alcançou mais de 43 mil votos, contra cerca de 23 mil de Weslian Roriz e 15 mil de Toninho do PSOL. Para o Senado, Cristovam Buarque e Rodrigo Rollemberg foram os dois mais votados na 9ª Zona.
A tendência ainda resistiu em 2014. Rodrigo Rollemberg recebeu aproximadamente 42 mil votos para governador, equivalentes a 46%, diante de cerca de 25 mil de Jofran Frejat e 17 mil de Agnelo Queiroz. Para presidente, Dilma Rousseff obteve aproximadamente 43 mil votos, Marina Silva, 33 mil, e Aécio Neves, 31 mil.
A virada de 2018
Foi em 2018 que ocorreu a mudança mais evidente dessa trajetória. Jair Bolsonaro recebeu 55.669 votos na 9ª Zona Eleitoral, equivalentes a 57,5%, abrindo ampla vantagem sobre Ciro Gomes, com 17.410 votos, e Fernando Haddad, com 10.552.
Depois de sucessivas eleições em que candidatos de esquerda haviam conseguido forte desempenho na região, a votação presidencial passou a apontar em outra direção.
A mudança também apareceu na disputa pelo Senado, em que Izalci Lucas e Leila Barros ficaram à frente de Cristovam Buarque. Para deputado federal, Flávia Arruda foi a mais votada, seguida por Erika Kokay e Bia Kicis. Nas eleições proporcionais, portanto, o resultado continuava mais dividido do que na disputa presidencial.
2022 confirmou a mudança
Quatro anos depois, as urnas mostraram que 2018 não havia sido um episódio isolado.
No primeiro turno de 2022, Jair Bolsonaro recebeu 31.509 votos na 9ª Zona, equivalentes a 54,69% dos votos válidos para presidente. Lula recebeu 19.602, ou 34,02%. A diferença foi de 11.907 votos.
Na disputa pelo Senado, Damares Alves recebeu 43.220 votos na região, ou 44,68%. Flávia Arruda ficou com 23.991 votos, 24,80%, enquanto Rosilene Corrêa, do PT, teve 23.539, ou 24,33%.
Para o Governo do Distrito Federal, Ibaneis Rocha também abriu vantagem. O candidato do MDB recebeu 46.059 votos, ou 45,88%, diante de 29.096 de Leandro Grass, com 28,99%. Paulo Octávio teve 6.678 votos, Coronel Moreno, 6.484, Izalci Lucas, 5.822, e Leila Barros, 4.768.
A eleição para deputado federal mostrou novamente um eleitorado menos homogêneo. Bia Kicis, do PL, liderou no Guará com 13.657 votos, ou 13,94%, mas Erika Kokay, do PT, ficou em segundo lugar, com 9.517 votos, ou 9,72%. Depois vieram Fred Linhares, com 8.093, Rafael Prudente, com 5.637, e Júlio César, com 4.210.
Os números colocam a mudança em perspectiva. No voto para presidente, o Guará passou de uma longa sequência de resultados favoráveis a candidatos de esquerda para duas eleições consecutivas, 2018 e 2022, em que Bolsonaro abriu vantagem expressiva. Nas eleições proporcionais, entretanto, a divisão continuou maior, com candidatos de diferentes posições políticas entre os mais votados.
O que mudou no Guará
Quando o Jornal do Guará analisou essa transformação em 2022, levantou como possíveis explicações as mudanças no perfil socioeconômico da cidade. Durante décadas, o Guará concentrou grande número de servidores públicos, professores e bancários, categorias com forte organização sindical. Ao mesmo tempo, a expansão imobiliária trouxe milhares de novos moradores e modificou a composição da população.
Essas mudanças ajudam a formular hipóteses, mas os resultados eleitorais não permitem apontar uma causa única para a alteração do voto. Também não significam que todos os moradores tenham migrado politicamente na mesma direção. As eleições para deputado federal e distrital mostram um eleitorado capaz de distribuir seus votos entre candidatos de campos diferentes.
E em 2026?
É justamente esse histórico que torna a eleição deste ano especialmente interessante para o Guará. Entre 1990 e 2014, a esquerda teve vantagem recorrente nas principais disputas. Em 2018 houve uma ruptura clara, principalmente na eleição presidencial. Em 2022, a mudança se repetiu.
Em outubro, as urnas vão mostrar o próximo capítulo dessa história: se o comportamento observado nas duas últimas eleições gerais permanece ou se o eleitorado guaraense volta, mais uma vez, a mudar de direção.

