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“Compramos um sonho”, diz mulher vítima de golpe da falsa cirurgia de mama

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DÉLIO ANDRADE
DÉLIO ANDRADEhttp://delioandrade.com.br
Jornalista, sob o Registro número 0012243/DF
Distrito Federal

Grupo de mulheres denuncia golpe envolvendo um falso mutirão de cirurgias plásticas que prometia procedimentos gratuitos de redução de mama

01/11/2026 15:46

, atualizado 01/11/2026 16:09

VINÍCIUS SCHMIDT/METRÓPOLES @vinicius.foto
“Compramos um sonho”, diz mulher vítima de golpe da falsa cirurgia de mama

Ao menos 30 mulheres teriam sido atraídas a um falso mutirão de cirurgias de mama, anunciado como se fosse realizado no Hospital Regional da Asa Norte (Hran). Para garantir os procedimentos, as pacientes eram orientadas a pagar valores entre R$ 1 mil e R$ 3 mil, sob a justificativa de que o dinheiro seria destinado à compra de insumos cirúrgicos.

Assista: 

Uma das mulheres que acreditaram na proposta foi Laura*. Ela conta que chegou ao projeto por indicação de uma amiga e acreditou na iniciativa por se tratar de um suposto mutirão realizado pelo SUS, associado à campanha Outubro Rosa.

O nome da unidade pública de saúde teria sido utilizado indevidamente para dar credibilidade à falsa promessa de realização das cirurgias. Não havia, portanto, um mutirão oficial do hospital nos moldes anunciados às pacientes.

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A vítima tinha o sonho de fazer uma redução de mama desde a adolescência, mas nunca havia conseguido realizar o procedimento devido ao alto custo. Por isso, a possibilidade de participar de um projeto social pareceu uma oportunidade.

A responsável pelo projeto, identificada como Tayná Regina Oliveira Castro, 42 anos, ainda teria utilizado indevidamente os nomes de cirurgiões plásticos conhecidos no Distrito Federal e que também atuam na Secretaria de Saúde, afirmando que eles seriam os responsáveis por realizar os procedimentos nas pacientes.

“Em nenhum momento foi dito que o pagamento de R$ 1 mil seria para facilitar alguma coisa. A informação era de que seria para os insumos que seriam utilizados. Como era um projeto, você entende que é algo dentro da legalidade”, relata a vítima.

Ao Metrópoles, Tayná negou ser golpista e disse que também foi “induzida a erro pelas informações que me foram apresentadas sobre a proposta de cirurgias por valores reduzidos” (leia a resposta completa mais abaixo).

Depois de realizar os exames solicitados pelo particular, ela recebeu orientações sobre uma consulta que aconteceria no próprio Hran. Segundo ela, as pacientes eram informadas sobre o nome do médico que faria o atendimento, o local de entrada no hospital e como deveriam proceder.

A desconfiança começou quando uma clínica vinculada a um dos cirurgiões mencionados no projeto publicou um alerta nas redes sociais, negando qualquer relação com a iniciativa e classificando a oferta como fraudulenta. A responsável pelo projeto compartilhou a publicação no grupo de WhatsApp das pacientes e alegou que alguém havia feito uma denúncia.

Mesmo após o alerta, segundo Laura*, a responsável continuou apresentando justificativas e prometendo soluções. Outra possibilidade de atendimento chegou a ser anunciada, com um novo médico e consultas supostamente agendadas. A mulher afirma que chegou a ser comunicada sobre uma consulta e concluiu todos os exames solicitados.

“São muitas mulheres que, infelizmente, compraram um sonho. E não é propriamente sobre valores, é sobre acreditar. Essa pessoa continua brincando com o sentimento das pessoas. É um sonho com o qual você começa a mexer, envolve a família toda, toda uma preparação”, desabafa.

Além da cirurgia que não aconteceu, Laura* diz que enfrenta dificuldades para recuperar o dinheiro pago. A vítima afirma que a responsável apresenta sucessivas promessas de pagamento, com prazos que são adiados.

Em determinado momento, o grupo chegou a ser fechado para manifestações, restringindo o contato das participantes à conversa privada com a organizadora. “Existe sempre a promessa de que vai pagar na segunda, na terça, amanhã. O mês acabou e ninguém recebeu”, conta.

Para ela, a frustração é ainda maior porque a iniciativa utilizava o Outubro Rosa, campanha de conscientização sobre o câncer de mama, para atrair mulheres interessadas nos procedimentos.

“É desumano usar uma causa humanitária para ganhar dinheiro. O Outubro Rosa é uma causa muito difícil para quem vive isso. Mesmo que você não passe pela situação, conhece pessoas que passam e sabe que não é fácil. Além de não realizar um sonho, a gente vê uma pessoa usar uma causa tão nobre para se beneficiar financeiramente”, lamenta.

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Metrópoles

Tayná Castro é apontada com responsável pelo projeto que enganou as mulheres

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Tayná Castro é apontada com responsável pelo projeto que enganou as mulheres

Reprodução

Um dos médicos que teve o nome usado indevidamente alertou para o golpe

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Um dos médicos que teve o nome usado indevidamente alertou para o golpe

VINÍCIUS SCHMIDT/METRÓPOLES @vinicius.foto

Mulheres denunciam terem sido enganadas com falso mutirão

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Mulheres denunciam terem sido enganadas com falso mutirão

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Ao menos 30 mulheres faziam parte do grupo do falso projeto

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Ao menos 30 mulheres faziam parte do grupo do falso projeto

VINÍCIUS SCHMIDT/METRÓPOLES @vinicius.foto

“Muito revoltante”

Outra mulher que afirma ter sido vítima do suposto golpe é Marina*. Ela chegou a pagar R$ 1 mil para participar do projeto. A paciente relata que conheceu a iniciativa por indicação de uma conhecida e acreditou na proposta porque já havia acompanhado a realização de mutirões de cirurgias em hospitais públicos.

Segundo ela, a responsável pelo projeto afirmava que conseguiria incluir os nomes das interessadas em uma lista de pacientes do Hran.

Depois que o primeiro atendimento foi desmarcado, Tayná teria apresentado uma nova possibilidade: uma consulta com um cirurgião plástico em uma clínica particular, em Águas Claras, com a promessa de que o procedimento seria realizado pelo SUS.

A consulta, no entanto, também foi cancelada. A paciente afirma que recebeu sucessivas promessas de remarcação até ser informada de que a cirurgia seria realizada novamente no Hran, com data marcada para 20 de outubro. Para se preparar, ela fez todos os exames solicitados em clínicas particulares, incluindo avaliação de risco cirúrgico e exames de sangue.

No dia previsto para o procedimento, quando já estava a caminho do hospital, recebeu uma ligação informando que tudo havia sido cancelado. Segundo a mulher, Tayná prometeu devolver o dinheiro, mas, desde então, apresenta justificativas diferentes para não fazer o pagamento.

“É porque a conta está bloqueada, porque vai pegar empréstimo, porque vai penhorar o carro. É sempre uma desculpa diferente. Eu preciso desse dinheiro, mas até hoje não recebi”, relata.

Além dos R$ 1 mil pagos, Marina* diz ter tido outros gastos para se preparar para a cirurgia. Ela comprou sutiã e meias especiais, pagou pelos exames e chegou a contratar uma pessoa para acompanhá-la no hospital.

“Mexeu com toda a minha vida. Eu tive que contratar uma pessoa para ficar comigo no hospital, mudar minha agenda de trabalho e minha rotina familiar. Eu me preparei emocionalmente para realizar esse sonho neste ano e, no fim, nada aconteceu”, desabafa.

A mulher afirma que outras pacientes também foram prejudicadas e que os pagamentos eram feitos para diferentes contas. No caso dela, a transferência foi direcionada a um CNPJ ligado a uma atividade de enfermagem, mas ela diz não saber quem era o titular. Outras mulheres, segundo o relato, teriam transferido dinheiro diretamente para Tayná ou para contas de terceiros.

“Feriu profundamente todas nós, né? Mulheres que não tinham as a menor condição, diaristas e tudo, que deram um jeito de conseguir dinheiro emprestado para poder fazer essa cirurgia e nada. E ela trata assim com o maior descaso do mundo”, desabafa.

 (*) nome fictício para preservar a identidade da vítima

O que diz a Secretaria de Saúde

Em nota, a Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF) informou que não recebeu denúncia formal referente aos fatos relatados.

De acordo com a pasta, todos os procedimentos e insumos ofertados na rede pública de saúde são gratuitos, regulados pelo SUS e sem cobrança de qualquer natureza. “A SES-DF permanece à disposição para colaborar com as investigações”, declarou.

Casos suspeitos de golpe ou cobrança irregular devem ser denunciados à polícia e à Ouvidoria do DF, pelo telefone 162 ou pelo portal Participa DF (https://www.participa.df.gov.br/).

O outro lado

Procurada pela reportagem, Tayná se manifestou por meio de nota. Leia abaixo, na íntegra:

“Também fui induzida a erro pelas informações que me foram apresentadas sobre a proposta de cirurgias por valores reduzidos. Na ocasião, foram apresentados relatos de procedimentos realizados em hospitais particulares. Acreditei na proposta, efetuei meu próprio pagamento e cheguei a comentar com amigas sobre a possibilidade de realizar a cirurgia. Diante dos questionamentos que surgiram posteriormente, passei a buscar esclarecimentos e providências para a restituição dos valores pagos. Os fatos serão esclarecidos pelas vias adequadas, com a apresentação dos documentos pertinentes“.

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