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Dezenas de mulheres pagaram até R$ 3 mil em falso mutirão do Outubro Rosa

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DÉLIO ANDRADE
DÉLIO ANDRADEhttp://delioandrade.com.br
Jornalista, sob o Registro número 0012243/DF
Distrito Federal

Responsável pelo suposto projeto usava nomes de cirurgiões renomados e de hospital público do DF para dar credibilidade ao falso mutirão

01/11/2026 15:44

, atualizado 01/11/2026 15:48

VINÍCIUS SCHMIDT/METRÓPOLES @vinicius.foto
Dezenas de mulheres pagaram até R$ 3 mil em falso mutirão do Outubro Rosa

Um grupo de mulheres denuncia ter sido vítima de um golpe envolvendo um falso mutirão de cirurgias plásticas no Hospital Regional da Asa Norte (Hran), que prometia procedimentos gratuitos de redução de mama e colocação de próteses. Sob o nome de “Renova Mama, Um Recomeço”, o suposto projeto usava a campanha Outubro Rosa como fachada para atrair pacientes. As vítimas eram informadas de que precisariam pagar apenas pelos insumos cirúrgicos, com valores que variavam de R$ 1 mil a R$ 3 mil.

O nome da unidade pública de saúde teria sido utilizado indevidamente para dar credibilidade à falsa promessa de realização das cirurgias. Não havia, portanto, um mutirão oficial do hospital nos moldes anunciados às pacientes.

A responsável pelo projeto, identificada como Tayná Regina Oliveira Castro, 42 anos, ainda teria utilizado indevidamente os nomes de cirurgiões plásticos conhecidos no Distrito Federal e que também atuam na Secretaria de Saúde, afirmando que eles seriam os responsáveis por realizar os procedimentos nas pacientes. Ao Metrópoles, Tayná negou ser golpista e disse que também foi “induzida a erro pelas informações que me foram apresentadas sobre a proposta de cirurgias por valores reduzidos” (leia a resposta completa mais abaixo).

As suspeitas começaram a surgir quando as mulheres compareciam às consultas supostamente agendadas com os cirurgiões e descobriam que não havia qualquer registro de atendimento em seus nomes. Em outros casos, os atendimentos previstos para o Hran ou para clínicas particulares vinculadas aos médicos eram desmarcados, poucas horas antes do horário marcado, por pessoas ligadas ao suposto projeto social.

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Agora, as mulheres tentam recuperar os valores pagos pelos procedimentos que nunca foram realizados. A denúncia também foi registrada na Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), que investiga o caso como suspeita de estelionato.

Conforme apurado, ao menos 30 mulheres integram o grupo de pacientes que aguardavam atendimento no suposto mutirão de cirurgias plásticas e teriam pago valores indevidos para garantir os procedimentos.

Após realizarem transferências para contas bancárias de Tayná ou de terceiros supostamente ligados a ela, as vítimas recebiam solicitações de exames médicos assinadas por uma médica generalista. Em áudios enviados ao grupo de pacientes do projeto, aos quais a reportagem teve acesso, a suspeita orientava as mulheres sobre como deveriam proceder no dia das consultas.

“Uma pessoa responsável da secretaria [de Saúde] vai entrar em contato com cada uma de vocês, informando a data, o horário e o local da consulta. No dia, é preciso levar o cartão do SUS. Vai ter um agente da secretaria lá que, ao final da consulta, já vai colocar a cirurgia de vocês no mapa cirúrgico e entregar um protocolo. Então, vocês já vão sair da consulta com a cirurgia agendada”, garantiu a mulher no áudio.

Na mesma gravação, a golpista fala que, para conseguir colocar as mulheres no mutirão de cirurgias, teria justificado que as pacientes faziam parte de uma ONG.

“Para, todavia, somos pacientes de ONG, pacientes fragilizadas, pacientes que passaram por problemas de violência psicológica. Pelo amor de Deus, tá, gente? Como o projeto é voltado para pacientes com câncer e para a autoestima, conseguimos essa brecha para entrar como ONG. Assim, não teremos problema nenhum com as nossas internações, tá bom?”, orienta ela.

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Metrópoles

Tayná Castro é apontada com responsável pelo projeto que enganou as mulheres

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Tayná Castro é apontada com responsável pelo projeto que enganou as mulheres

Reprodução

Um dos médicos que teve o nome usado indevidamente alertou para o golpe

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Um dos médicos que teve o nome usado indevidamente alertou para o golpe

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Mulheres denunciam terem sido enganadas com falso mutirão

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Mulheres denunciam terem sido enganadas com falso mutirão

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Ao menos 30 mulheres faziam parte do grupo do falso projeto

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Ao menos 30 mulheres faziam parte do grupo do falso projeto

VINÍCIUS SCHMIDT/METRÓPOLES @vinicius.foto

“A gente comprou um sonho”

Uma das mulheres que acreditaram na proposta foi Laura*. Ela conta que chegou ao projeto por indicação de uma amiga e acreditou na iniciativa por se tratar de um suposto mutirão realizado pelo SUS, associado à campanha Outubro Rosa.

A vítima tinha o sonho de fazer uma redução de mama desde a adolescência, mas nunca havia conseguido realizar o procedimento devido ao alto custo. Por isso, a possibilidade de participar de um projeto social pareceu uma oportunidade.

“Em nenhum momento foi dito que o pagamento de R$ 1 mil seria para facilitar alguma coisa. A informação era de que seria para os insumos que seriam utilizados. Como era um projeto, você entende que é algo dentro da legalidade”, relata.

Depois de realizar os exames solicitados pelo particular, ela recebeu orientações sobre uma consulta que aconteceria no próprio Hran. Segundo ela, as pacientes eram informadas sobre o nome do médico que faria o atendimento, o local de entrada no hospital e como deveriam proceder.

A desconfiança começou quando uma clínica vinculada a um dos cirurgiões mencionados no projeto publicou um alerta nas redes sociais, negando qualquer relação com a iniciativa e classificando a oferta como fraudulenta. A responsável pelo projeto compartilhou a publicação no grupo de WhatsApp das pacientes e alegou que alguém havia feito uma denúncia.

Assista ao relato da vítima:

Mesmo após o alerta, segundo Laura*, a responsável continuou apresentando justificativas e prometendo soluções. Outra possibilidade de atendimento chegou a ser anunciada, com um novo médico e consultas supostamente agendadas. A mulher afirma que chegou a ser comunicada sobre uma consulta e concluiu todos os exames solicitados.

“São muitas mulheres que, infelizmente, compraram um sonho. E não é propriamente sobre valores, é sobre acreditar. Essa pessoa continua brincando com o sentimento das pessoas. É um sonho com o qual você começa a mexer, envolve a família toda, toda uma preparação”, desabafa.

Além da cirurgia que não aconteceu, Laura* diz que enfrenta dificuldades para recuperar o dinheiro. A vítima afirma que a responsável apresenta sucessivas promessas de pagamento, com prazos que são adiados.

Em determinado momento, o grupo chegou a ser fechado para manifestações, restringindo o contato das participantes à conversa privada com a organizadora. “Existe sempre a promessa de que vai pagar na segunda, na terça, amanhã. O mês acabou e ninguém recebeu”, conta.

Para ela, a frustração é ainda maior porque a iniciativa utilizava o Outubro Rosa, campanha de conscientização sobre o câncer de mama, para atrair mulheres interessadas nos procedimentos.

“É desumano usar uma causa humanitária para ganhar dinheiro. O Outubro Rosa é uma causa muito difícil para quem vive isso. Mesmo que você não passe pela situação, conhece pessoas que passam e sabe que não é fácil. Além de não realizar um sonho, a gente vê uma pessoa usar uma causa tão nobre para se beneficiar financeiramente”, lamenta.

 (*) nome fictício para preservar a identidade da vítima

Médicos negam participação

Os cirurgiões plásticos citados na divulgação do suposto mutirão negam qualquer envolvimento com a iniciativa. Um deles contou que recebeu, em 1º de outubro, uma ligação de uma mulher que dizia representar uma ONG voltada a atender vítimas de violência doméstica. Na conversa, ela teria perguntado se o médico poderia participar de um projeto destinado a mulheres em situação de vulnerabilidade psicológica e mencionado outros cirurgiões.

A iniciativa, no entanto, não avançou. Dias depois, uma paciente procurou a clínica particular de um deles afirmando que tinha uma consulta marcada com o médico e que havia sido orientada a pagar antecipadamente por parte do procedimento.

A equipe esclareceu que o cirurgião não tinha relação com o projeto e que não cobra valores antes de uma consulta ou de assumir formalmente a realização de uma cirurgia. Segundo ele, os procedimentos realizados no Hran seguem outra finalidade e não correspondem à proposta apresentada às mulheres.

Outro cirurgião citado também negou qualquer vínculo com a iniciativa. Segundo o médico, a suspeita entrou em contato com ele e com outros profissionais, mas nunca houve acordo para a realização de cirurgias ou recebimento de valores.

O médico disse que chegou a ser procurado por pacientes interessadas nos procedimentos e que, ao perceber a situação, alertou sobre a possibilidade de golpe.

De acordo com o cirurgião, as cirurgias realizadas no Hran relacionadas à mama são, em geral, de caráter reparador, como as reconstruções mamárias, e não correspondem à oferta de procedimentos estéticos apresentada às mulheres. Ele afirmou que nunca autorizou o uso de seu nome e que pretende tomar medidas judiciais contra a responsável pela divulgação das informações.

O que diz a Secretaria de Saúde

Em nota, a Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF) informou que não recebeu denúncia formal referente aos fatos relatados.

De acordo com a pasta, todos os procedimentos e insumos ofertados na rede pública de saúde são gratuitos, regulados pelo SUS e sem cobrança de qualquer natureza. “A SES-DF permanece à disposição para colaborar com as investigações”, declarou.

Casos suspeitos de golpe ou cobrança irregular devem ser denunciados à polícia e à Ouvidoria do DF, pelo telefone 162 ou pelo portal Participa DF (https://www.participa.df.gov.br/).

O outro lado

Procurada pela reportagem, Tayná se manifestou por meio de nota. Leia abaixo, na íntegra:

“Também fui induzida a erro pelas informações que me foram apresentadas sobre a proposta de cirurgias por valores reduzidos. Na ocasião, foram apresentados relatos de procedimentos realizados em hospitais particulares. Acreditei na proposta, efetuei meu próprio pagamento e cheguei a comentar com amigas sobre a possibilidade de realizar a cirurgia. Diante dos questionamentos que surgiram posteriormente, passei a buscar esclarecimentos e providências para a restituição dos valores pagos. Os fatos serão esclarecidos pelas vias adequadas, com a apresentação dos documentos pertinentes“.

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